Se te dizem que faças o que quiseres, a primeira coisa que parece aconselhável é que penses com tempo e a fundo o que é aquilo que queres. Apetecem-te com certeza muitas coisas, amiúde contraditórias, como acontece com toda a gente: queres ter uma moto, mas não queres partir a cabeça no asfalto, queres ter amigos, mas sem perderes a tua independência, queres ter dinheiro, mas não queres sujeitar-te ao próximo para o conseguires, queres saber coisas e por isso compreendes que é preciso estudar, mas também queres divertir-te, queres que eu não te chateie e te deixe viver à tua maneira, mas também que esteja presente para te ajudar quando necessitas disso, etc. Numa palavra, se tivesses que resumir tudo isto e pôr sinceramente em palavras o teu desejo global e mais profundo, dir-me-ias: «Olha, pai, o que eu quero é ter uma vida boa.» Bravo! O prémio para este senhor! Era isso mesmo o meu conselho: quando te disse «faz o que quiseres», o que, no fundo, pretendia recomendar-te é que tivesses o atrevimento de teres uma vida boa. (…)
Queres ter uma vida boa: magnífico. Mas também queres que essa vida boa não seja a vida boa de uma couve-flor ou de um escaravelho, com todo o respeito que tenho por ambas as espécies, mas uma vida humana boa. É o que te interessa, creio eu. E tenho a certeza de que não renunciarias a isso por nada deste mundo. Ser-se humano, já o vimos antes, consiste principalmente em ter relações com outros seres humanos. Se pudesses ter muito, muito dinheiro, uma casa mais sumptuosa do que um palácio das mil e uma noites, as melhores roupas, os alimentos mais requintados (…), as aparelhagens mais perfeitas, etc., mas tudo isso à custa de não voltares a ver nem a ser visto – nunca – por um outro ser humano, ficarias satisfeito? Quanto tempo poderias viver assim sem te tornares louco? Não será a maior das loucuras querermos as coisas à custa da relação com as pessoas? Mas se justamente a graça de todas as coisas de que falámos assenta no facto de te permitirem – ou parecerem permitir – relacionares-te mais favoravelmente com os outros! (…) Muito poucas coisas conservam a sua graça na solidão; e se a solidão for completa e definitiva, todas as coisas se volvem irremediavelmente amargas. A vida humana boa é vida boa entre seres humanos ou, caso contrário, pode ser que seja ainda vida, mas não será nem boa nem humana”.
Fernando Savater, Ética para um Jovem, 4.ª ed., trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Presença, 1997, pp. 56-57
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
COMO HAVEMOS DE VIVER?
O Crime menos ameaçador é quase ignorado, mas também veicula a sua mensagem. Todos os dias, 155 mil utentes do Metro saltam sobre as portas de acesso. Num ano, esta evasão custa à cidade pelo menos 65 milhões de dólares que poderiam ser usados na melhoria dos transportes públicos,. Também dá um exemplo muito visível de desprezo pela ideia de que aqueles que tiram partido de um bem público devem desempenhar um papel no seu apoio. Mas por que não andar de borla, se se consegue não ser apanhado? Não é o que fazem todos? Então, para quê ser estúpido e agir de outra forma? Um americano entrevistado para os Habits of de Heart, um influente estudo dos valores norte-americanos de meados dos anos 1980, colocou-os nos seguintes termos:
Todos querem estar em cima e fazer as coisas à sua maneira. È como numa relação […] Quero dizer, não quero ser o único a sofrer. Não quero ser o único a sofrer. Não quero ser o único palerma. Não quero ser o bobo da festa quando os outros não fazem a sua parte.
O génio libertado pelo nosso incentivo ao simples interesse próprio debilitou o nosso sentido de pertença a uma comunidade. Cada indivíduo adota a ética de “olhar cá pelo número um”. Vemos os outros como fontes potenciais de lucro e esperamos que os outros nos vejam da mesma forma. A suposição é que o melhor é olharmos por nós próprios, pois o outro aproveitar-se-á de nós sempre que tal lhe for possível – e a suposição torna-se uma profecia que se cumpre a si mesma porque de nada vale ser cooperante com quem não sacrificará o seu ganho pessoal de curto prazo a favor de benefícios mútuos de longo prazo. Mas uma associação de indivíduos isolados não ligados por um sentido de local, por extensos laços de parentesco, por lealdade para com um empregador, mas apenas pelos laços efémeros do interesse próprio, não pode ser uma sociedade boa. Uma tal sociedade fracassará mesmo que professe que o seu papel é meramente conceder a cada cidadão “vida, liberdade e demanda da felicidade”. Fracassará na concessão disto, não só aos pobres, mas até aos ricos. Como escrevem Robert Bellah e os seus colegas e Habits of the Heart, “ Não é possível ter uma vida rica privada num estado de cerco, desconfiando de todos os estranhos e transformando a casa num quartel-general”. Na ética e na formação de uma comunidade há espirais virtuosas e espirais viciosas.
Estamos a caminho da criação de cidades que são meras agregações de indivíduos mutuamente hostis, vacilando no limite da guerra hobbesiana de todos contra todos. Sempre que o soberano não conseguir reunir força suficiente para exercer pressão sobre os restantes, a guerra pode eclodir, e os indivíduos estão armados de forma mais letal do que Hobbes poderia alguma vez imaginar. A menos que iniciemos agora a difícil tarefa de restaurar um sentido de compromisso relativamente a algo que não nós próprios, esse é o futuro que nos espera.
“ Como havemos de viver?” Peter Singer, Dinalivro , Lx2006
Todos querem estar em cima e fazer as coisas à sua maneira. È como numa relação […] Quero dizer, não quero ser o único a sofrer. Não quero ser o único a sofrer. Não quero ser o único palerma. Não quero ser o bobo da festa quando os outros não fazem a sua parte.
O génio libertado pelo nosso incentivo ao simples interesse próprio debilitou o nosso sentido de pertença a uma comunidade. Cada indivíduo adota a ética de “olhar cá pelo número um”. Vemos os outros como fontes potenciais de lucro e esperamos que os outros nos vejam da mesma forma. A suposição é que o melhor é olharmos por nós próprios, pois o outro aproveitar-se-á de nós sempre que tal lhe for possível – e a suposição torna-se uma profecia que se cumpre a si mesma porque de nada vale ser cooperante com quem não sacrificará o seu ganho pessoal de curto prazo a favor de benefícios mútuos de longo prazo. Mas uma associação de indivíduos isolados não ligados por um sentido de local, por extensos laços de parentesco, por lealdade para com um empregador, mas apenas pelos laços efémeros do interesse próprio, não pode ser uma sociedade boa. Uma tal sociedade fracassará mesmo que professe que o seu papel é meramente conceder a cada cidadão “vida, liberdade e demanda da felicidade”. Fracassará na concessão disto, não só aos pobres, mas até aos ricos. Como escrevem Robert Bellah e os seus colegas e Habits of the Heart, “ Não é possível ter uma vida rica privada num estado de cerco, desconfiando de todos os estranhos e transformando a casa num quartel-general”. Na ética e na formação de uma comunidade há espirais virtuosas e espirais viciosas.
Estamos a caminho da criação de cidades que são meras agregações de indivíduos mutuamente hostis, vacilando no limite da guerra hobbesiana de todos contra todos. Sempre que o soberano não conseguir reunir força suficiente para exercer pressão sobre os restantes, a guerra pode eclodir, e os indivíduos estão armados de forma mais letal do que Hobbes poderia alguma vez imaginar. A menos que iniciemos agora a difícil tarefa de restaurar um sentido de compromisso relativamente a algo que não nós próprios, esse é o futuro que nos espera.
“ Como havemos de viver?” Peter Singer, Dinalivro , Lx2006
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Peter Singer; Como havemos de viver
DUAS PALAVRAS
Tinha o nome de Belisa Crepusculario, não por fé de batismo ou escolha de sua mãe, mas porque ela própria o procurou até o encontrar e com ele se ataviou. Percorria o país, desde as regiões mais altas a frias até às costas quentes, instalando-se nas feiras e nos mercados, onde montava quatro paus com um toldo de linho, debaixo do qual se protegia do sol e da chuva para atender a clientela. Não precisava de apregoar a mercadoria, porque de tanto caminhar por aqui e por ali todos a conheciam. Havia os que a aguardavam de um ano para o outro e quando aparecia na aldeia com a trouxa debaixo do braço faziam bicha em frente da sua barraca. Vendia a preços justos. Por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de fantasia, mas longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada sem saltar nada. Assim levava as notícias de uma aldeia para outra. As pessoas pagavam-lhe por juntar uma ou duas linhas: nasceu um menino, morreu Fulano, casaram-se os nossos filhos, queimaram-se as colheitas. Em cada lugar juntava-se uma pequena multidão à sua volta para a ouvir quando começava a falar e assim se inteiravam das vidas dos outros, dos parentes que viviam longe, dos pormenores da guerra civil. A quem lhe comprasse cinquenta centavos, dava de presente uma palavra secreta para afugentar a melancolia. Não era a mesma para todos, certamente, porque isso teria sido um engano coletivo. Cada um recebia a sua com a certeza de que ninguém mais a empregava para esse fim no universo inteiro e para lá dele.
Belisa Crepusculario nascera numa família tão miserável que nem sequer possuía nomes para chamar aos filhos. Veio ao mundo e cresceu na região mais inóspita, onde alguns anos as chuvas se transformam em avalanchas de água que arrastam tudo e noutros não cai nem uma gota do céu, o sol aumenta até ocupar o horizonte por inteiro e o mundo torna-se um deserto. Até completar 11 anos não teve outra ocupação nem virtude senão sobreviver à fome e à fadiga dos séculos. Durante uma seca interminável coube-lhe enterrar quatro irmãos mais pequenos e, quando compreendeu que chegava a sua vez, decidiu começar a andar pelas planícies em direção ao mar, a ver se, na viagem, conseguia enganar a morte. A terra estava escalvada, partida em gretas profundas, semeada de pedras, fósseis de árvores e de arbustos espinhosos, esqueletos de animais, embranquecidos pelo calor. De vez em quando deparava com famílias que, como ela, iam até ao Sul seguindo a miragem da água. Alguns tinham iniciado a caminhada levando os seus haveres ao ombro ou em carrinhos de mão, mas mal podiam mover os próprios ossos e ao fim de pouco caminhar acabavam por abandonar as suas coisas. Arrastavam-se penosamente, com a pele feita couro de lagarto e os olhos queimados pela reverberação da luz. Belisa saudava-os com um gesto ao passar, mas não parava, porque não podia gastar as suas forças em exercícios de compaixão. Muitos caíram pelo caminho, mas ela era tão teimosa que conseguiu atravessar o inferno e, por fim, chegar aos primeiros mananciais, finos fios de água, quase invisíveis, que alimentavam uma vegetação raquítica e que mais adiante se transformavam em riachos e pântanos.
Belisa Crepusculario salvou a vida e, além disso, descobriu a escrita por acaso. Ao chegar a uma aldeia nas proximidades da costa, o vento pôs-lhe aos pés a folha de um jornal. Pegou naquele papel amarelo e quebradiço, esteve longo tempo a observá-lo sem adivinhar o seu uso, até que a curiosidade pôde mais que a timidez. Aproximou-se de um homem que lavava um cavalo no mesmo charco turvo onde ela saciara a sede.
— Que é isto? — perguntou.
— A página desportiva de um jornal — respondeu o homem sem dar mostras de espanto pela sua ignorância.
A resposta deixou a rapariga atónita mas não quis parecer atrevida, limitou-se a perguntar o significado das patinhas de mosca desenhadas sobre o papel.
— São palavras, menina. Aí diz-se que Fulgêncio Barba derrubou o negro Tiznao ao terceiro assalto.
Nesse dia Belisa Crepusculario soube que as palavras andam soltas, sem dono, e que qualquer um com um pouco de manha pode agarrá-las para as vender. Considerou a sua situação e concluiu que além de se prostituir ou empregar-se como criada nas cozinhas dos ricos, poucas eram as ocupações que podia desempenhar. Vender palavras pareceu-lhe uma alterei nativa decente. A partir desse momento exerceu tal profissão e nunca se interessou por outra. A princípio oferecia a sua mercadoria sem suspeitar que as palavras podiam também escrever-se fora dos jornais. Quando soube isso calculou as infinitas perspetivas do negócio, com as suas poupanças pagou vinte pesos a um padre para lhe ensinar a ler e escrever e com os três que lhe s sobraram comprou um dicionário. Leu-o de A a Z e depois atirou-o ao mar porque não era sua intenção cansar os clientes com palavras enlatadas.
Vários anos depois, numa manhã de Agosto, estava Belisa Crepusculario no meio de uma praça, sentada debaixo do toldo a vender argumentos de justiça a um velho que solicitava a sua pensão há dezassete anos. Era dia de mercado e havia muito bulício à sua volta. Ouviram-se golpes e gritos, ela levantou os olhos da escrita e viu primeiro uma nuvem de pó e, em seguida, um grupo de cavalos que dela saiu. Tratava-se dos homens do Coronel, comandados pelo Mulato, um gigante conhecido em toda a região pela rapidez da sua faca e pela lealdade para com o chefe. Ambos, o Coronel e o Mulato, tinham passado a vida ocupados na guerra civil e os seus homens estavam irremediavelmente unidos ao malefício e à calamidade. Os guerreiros entraram na aldeia como um rebanho em fuga, envoltos em ruído, banhados de suor e deixando atrás de si os destroços de um furacão. As galinhas desapareceram a voar, os cães largaram a correr, as mulheres abalaram com os filhos e não ficou no local do mercado vivalma a não ser Belisa Crepusculario, que nunca tinha visto o Mulato e que por isso mesmo estranhou que ele se lhe dirigisse.
— Procuro-te a ti — gritou, apontando-a com o chicote enrolado e, antes que acabasse de dizer isto, dois homens caíram em cima da mulher atropelando o toldo e partindo o tinteiro, amarraram-lhe os pés e as mãos e puseram-na atravessada como um fardo de marinheiro sobre a garupa do cavalo do Mulato. Depois começaram a galopar em direção às colinas.
Horas mais tarde, quando Belisa Crepusculario estava quase a morrer com o coração transformado em areia pelas sacudidelas do cavalo, sentiu que paravam e que quatro mãos poderosas a punham em terra. Tentou pôr-se de pé e levantar a cabeça com dignidade, mas faltaram-lhe as forças e caiu com um suspiro, afundando-se num sono pesado.
Despertou várias horas depois com o murmúrio da noite no campo, mas não teve tempo de decifrar esses ruídos porque ao abrir os olhos viu na sua frente o olhar impaciente do Mulato, ajoelhado a seu lado.
— Finalmente acordas, mulher — disse, estendendo-lhe o cantil para que bebesse um gole de aguardente com pólvora a acabasse de recuperar à vida.
Ela quis saber a causa de tantos maltratas e ele explicou-lhe que o Coronel necessitava dos seus serviços. Deixou-a molhar a cara e depois levou-a até a um dos extremos do acampamento, onde o homem mais temido do país repousava numa rede pendurada entre duas árvores. Ela não conseguiu ver-lhe o rosto, porque ele tinha em cima a sombra incerta da folhagem e a sombra indelével de muitos anos a viver como um bandido, mas imaginou que devia ter uma expressão viciosa uma vez que o seu gigantesco ajudante se dirigia a ele com tanta humildade. Surpreendeu-a a voz dele, suave e bem modulada como a de um professor.
— És tu a que vende palavras? — perguntou.
— Ao teu serviço — balbuciou ela, procurando na penumbra para o ver melhor.
O Coronel pôs-se de pé e a luz da tocha que o Mulato levava iluminou-lhe a cara. A mulher viu a sua pele escura e os seus ferozes olhos de puma e percebeu logo que estava em frente do homem mais solitário deste mundo.
— Quero ser presidente — disse ele.
Estava cansado de percorrer aquela terra maldita em guerras inúteis e derrotas que nenhum subterfúgio podia transformar em vitórias. Passara muitos anos a dormir à intempérie, picado por mosquitos, alimentando-se de iguanas e sopa de cobra, mas esses inconvenientes menores não eram razão suficiente para lhe mudar o destino. O que em verdade o enfadava era o terror nos olhos dos outros. Desejava entrar nas aldeias debaixo de arcos de triunfo, entre bandeiras de cores e flores, que o aplaudissem e lhe dessem de presente ovos frescos e pão acabado de sair do forno. Estava farto de ver como os homens fugiam à sua passagem, as mulheres abortavam de susto e tremiam as crianças, por isso decidira ser presidente. O Mulato sugeriu-lhe que fossem à capital e entrassem a galope no palácio para se apoderarem do governo, como tomaram tantas outras coisas sem pedir autorização, mas ao Coronel não interessava tornar-se noutro tirano, desses já tinha havido bastantes por ali e, além disso, dessa maneira não conseguiria o afeto das pessoas. A sua ideia consistia em ser eleito por votação popular nos comícios de Dezembro.
— Para isso tenho de falar como um candidato. Podes vender-me as palavras para um discurso? — perguntou o Coronel a Belisa Crepusculario.
Ela já tinha aceitado muitas encomendas, mas nenhuma como essa, no entanto não pôde negar-se, receando que o Mulato lhe enfiasse um tiro entre os olhos ou, pior ainda, que o Coronel desatasse a chorar. Por outro lado, teve vontade de o ajudar, porque sentiu uma palpitação quente na sua w pele, um desejo poderoso de tocar naquele homem, de percorrê-lo com as mãos, de apertá-lo entre os seus braços.
Toda a noite e boa parte do dia seguinte esteve Belisa Crepusculario à procura no seu repertório das palavras apropriadas para um discurso presidencial, vigiada de perto pelo Mulato, que não tirava os olhos das suas firmes pernas de caminhante e dos seus seios virginais. Retirou as palavras ásperas e secas, as demasiado floridas, as que estavam descoloridas pelo abuso, as que ofereciam promessas improváveis, as que careciam de verdade e as confusas, para ficar apenas com aquelas capazes de tocar com certeza o pensamento dos homens e a intuição das mulheres. Fazendo uso dos conhecimentos comprados ao padre por vinte pesos, escreveu o discurso numa folha de papel e fez logo sinais ao Mulato para desatar a corda com a qual a tinha amarrado pelas canelas a uma árvore. Levaram-na novamente ao Coronel e ao vê-lo tornou a sentir a mesma ansiedade palpitante do primeiro encontro. Deu-lhe o papel e esperou, enquanto ele a olhava segurando-o com a ponta dos dedos.
— Que porra diz isto aqui? — perguntou por fim.
— Não sabes ler?
— O que sei fazer é a guerra — respondeu ele.
Ela leu em voz alta o discurso. Leu-o três vezes, para que o seu cliente pudesse gravá-lo na memória. Quando terminou viu a emoção no rosto dos homens da tropa que se haviam juntado para a escutar e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de entusiasmo, certo de que com essas palavras a cadeira presidencial seria sua.
— Se, depois de ouvirem três vezes, os rapazes continuam de boca aberta, é porque esta droga serve, Coronel — aprovou o Mulato.
— Quanto te devo pelo teu trabalho, mulher? — perguntou o chefe.
— Um peso, Coronel.
— Não é caro — disse ele, abrindo a bolsa que trazia pendurada do cinturão com os restos do último saque.
— Além disso, tens direito a uma prenda. Correspondem-te duas, palavras secretas — disse Belisa Crepusculario.
— Como é isso?
Ela começou a explicar-lhe que, por cada cinquenta centavos que um cliente pagava, oferecia-lhe uma palavra de uso exclusivo. O chefe encolheu os ombros, porque não tinha o menor interesse na oferta, mas não quis ser indelicado com quem o servira tão bem. Ela aproximou-se devagar do tamborete de cabedal onde ele estava sentado e inclinou-se para lhe dar a sua prenda. Então o homem sentiu o cheiro de animal montês que saía daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelas ancas, o roçar terrível dos seus cabelos, o perfume de hortelã-pimenta sussurrando-lhe ao ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito.
— São tuas, Coronel — disse, ao retirar-se. — Podes usá-las como quiseres.
O Mulato acompanhou Belisa até à beira do caminho, sem deixar de a olhar com olhos suplicantes de cão perdido, mas quando estendeu a mão para lhe tocar, ela deteve-o com um chorrilho de palavras inventadas que tiveram a virtude de lhe espantar o desejo, porque julgou tratar-se de alguma maldição irrevogável.
Nos meses de Setembro, Outubro e Novembro, o Coronel pronunciou o seu discurso tantas vezes, que se não fosse feito com palavras refulgentes e duradoiras o uso tê-lo-ia transformado em cinza. Correu o país em todas as direções, entrando nas cidades com ar triunfai e detendo-se também nas aldeias mais esquecidas, lá onde só o rasto do lixo indicava a presença humana, para convencer os eleitores a votarem nele. Enquanto falava em cima de um estrado no centra da praça, o Mulato e os seus homens distribuíam caramelos e pintavam o seu nome com tinta dourada nas paredes, mas ninguém prestava atenção a esses recursos de mercador, porque estavam deslumbrados pela claridade das suas propostas e pela lucidez poética dos seus argumentos, contagiados pelo seu desejo tremendo de corrigir os erros da história e alegres pela primeira vez na sua vida.
Ao terminar a arenga do candidato, a tropa dava tiros de pistola para o ar e acendia petardos e, quando por fim se retiravam, ficava atrás um rasto de esperança que permanecia muitos dias no ar, como a recordação magnífica de um cometa. Imediatamente o Coronel se tornou o político mais popular. Era um fenómeno nunca visto, aquele homem surgido da guerra civil, cheio de cicatrizes, falando como um catedrático, cujo prestígio se espalhava pelo território nacional comovendo o coração da pátria. A imprensa ocupava-se dele. Os jornalistas viajaram de longe para o entrevistar e repetir as suas frases, e assim cresceu o número dos seus segui¬dores e inimigos.
— Estamos a ir bem, Coronel! — disse o Mulato ao completarem-se doze semanas de êxito.
Mas o candidato não o ouviu. Estava a repetir as suas duas palavras secretas, como fazia, cada vez com mais frequência.
Dizia-as quando abrandava a nostalgia, murmurava-as adormecido, levava-as consigo no cavalo, pensava-as antes de pronunciar o seu célebre discurso e surpreendia-se a saboreá-las nos momentos descui¬dados. E em todas as ocasiões em que essas duas palavras lhe vinham à mente evocava a presença de Belisa Crepusculario e excitavam-se-lhe os sentidos com a recordação do cheiro montês, o calor de incêndio, o roçar terrível e o perfume de hortelã-pimenta, até que começou a andar como um sonâmbulo e os seus homens compreenderam que se lhe tinha acabado a vida antes de alcançar a cadeira dos presidentes.
— Que se passa contigo, Coronel? — perguntava-lhe muitas vezes o Mulato, até que por fim, um dia, o chefe não aguentou mais e confessou-lhe que a razão do seu ânimo eram as duas palavras que trazia cravadas no ventre.
— Diz-mas, para ver se perdem o seu poder — pediu-lhe o fiel ajudante.
— Não tas direi, são só minhas — replicou o Coronel.
Cansado de ver o chefe a definhar como um condenado à morte, o Mulato pôs a espingarda ao ombro e partiu à procura de Belisa Crepusculario. Seguiu as suas pegadas por toda a vasta geografia até a encontrar numa aldeia do Sul, instalada debaixo do toldo do seu ofício, contando o rosário de notícias. Ficou à sua frente com as pernas abertas, empunhando a arma.
— Vem comigo — ordenou.
Ela estava à sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xaile pelos ombros e, em silêncio, trepou para a garupa do cavalo. Não trocaram nem um gesto em todo o caminho, porque o desejo que o Mulato sentia por ela se tornara raiva e só o medo que a sua língua lhe inspirava o impedia de a desfazer à chicotada, nem estava disposto a dizer que o Coronel andava aparvalhado, e que aquilo que tantos anos de batalha não haviam logrado, conseguiu-o um encantamento sussurrado ao ouvido. Três dias depois, chegado ao acampamento, levou de imediato a sua prisioneira até ao candidato, diante de toda a tropa.
— Coronel, trouxe-te esta bruxa para que lhe devolvas as suas palavras e para ela te devolver a hombridade — disse, apontando o cano da espingarda à nuca da mulher. O Coronel e Belisa Crepusculario olharam-se longamente, medindo-se à distância. Os homens compreenderam então que o seu chefe já não podia desfazer-se do feitiço das suas palavras endemoninhadas, porque todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ele avançou e lhe pegou na mão.
ISABEL ALLENDE, Contos de Eva Luna (1988)
Belisa Crepusculario nascera numa família tão miserável que nem sequer possuía nomes para chamar aos filhos. Veio ao mundo e cresceu na região mais inóspita, onde alguns anos as chuvas se transformam em avalanchas de água que arrastam tudo e noutros não cai nem uma gota do céu, o sol aumenta até ocupar o horizonte por inteiro e o mundo torna-se um deserto. Até completar 11 anos não teve outra ocupação nem virtude senão sobreviver à fome e à fadiga dos séculos. Durante uma seca interminável coube-lhe enterrar quatro irmãos mais pequenos e, quando compreendeu que chegava a sua vez, decidiu começar a andar pelas planícies em direção ao mar, a ver se, na viagem, conseguia enganar a morte. A terra estava escalvada, partida em gretas profundas, semeada de pedras, fósseis de árvores e de arbustos espinhosos, esqueletos de animais, embranquecidos pelo calor. De vez em quando deparava com famílias que, como ela, iam até ao Sul seguindo a miragem da água. Alguns tinham iniciado a caminhada levando os seus haveres ao ombro ou em carrinhos de mão, mas mal podiam mover os próprios ossos e ao fim de pouco caminhar acabavam por abandonar as suas coisas. Arrastavam-se penosamente, com a pele feita couro de lagarto e os olhos queimados pela reverberação da luz. Belisa saudava-os com um gesto ao passar, mas não parava, porque não podia gastar as suas forças em exercícios de compaixão. Muitos caíram pelo caminho, mas ela era tão teimosa que conseguiu atravessar o inferno e, por fim, chegar aos primeiros mananciais, finos fios de água, quase invisíveis, que alimentavam uma vegetação raquítica e que mais adiante se transformavam em riachos e pântanos.
Belisa Crepusculario salvou a vida e, além disso, descobriu a escrita por acaso. Ao chegar a uma aldeia nas proximidades da costa, o vento pôs-lhe aos pés a folha de um jornal. Pegou naquele papel amarelo e quebradiço, esteve longo tempo a observá-lo sem adivinhar o seu uso, até que a curiosidade pôde mais que a timidez. Aproximou-se de um homem que lavava um cavalo no mesmo charco turvo onde ela saciara a sede.
— Que é isto? — perguntou.
— A página desportiva de um jornal — respondeu o homem sem dar mostras de espanto pela sua ignorância.
A resposta deixou a rapariga atónita mas não quis parecer atrevida, limitou-se a perguntar o significado das patinhas de mosca desenhadas sobre o papel.
— São palavras, menina. Aí diz-se que Fulgêncio Barba derrubou o negro Tiznao ao terceiro assalto.
Nesse dia Belisa Crepusculario soube que as palavras andam soltas, sem dono, e que qualquer um com um pouco de manha pode agarrá-las para as vender. Considerou a sua situação e concluiu que além de se prostituir ou empregar-se como criada nas cozinhas dos ricos, poucas eram as ocupações que podia desempenhar. Vender palavras pareceu-lhe uma alterei nativa decente. A partir desse momento exerceu tal profissão e nunca se interessou por outra. A princípio oferecia a sua mercadoria sem suspeitar que as palavras podiam também escrever-se fora dos jornais. Quando soube isso calculou as infinitas perspetivas do negócio, com as suas poupanças pagou vinte pesos a um padre para lhe ensinar a ler e escrever e com os três que lhe s sobraram comprou um dicionário. Leu-o de A a Z e depois atirou-o ao mar porque não era sua intenção cansar os clientes com palavras enlatadas.
Vários anos depois, numa manhã de Agosto, estava Belisa Crepusculario no meio de uma praça, sentada debaixo do toldo a vender argumentos de justiça a um velho que solicitava a sua pensão há dezassete anos. Era dia de mercado e havia muito bulício à sua volta. Ouviram-se golpes e gritos, ela levantou os olhos da escrita e viu primeiro uma nuvem de pó e, em seguida, um grupo de cavalos que dela saiu. Tratava-se dos homens do Coronel, comandados pelo Mulato, um gigante conhecido em toda a região pela rapidez da sua faca e pela lealdade para com o chefe. Ambos, o Coronel e o Mulato, tinham passado a vida ocupados na guerra civil e os seus homens estavam irremediavelmente unidos ao malefício e à calamidade. Os guerreiros entraram na aldeia como um rebanho em fuga, envoltos em ruído, banhados de suor e deixando atrás de si os destroços de um furacão. As galinhas desapareceram a voar, os cães largaram a correr, as mulheres abalaram com os filhos e não ficou no local do mercado vivalma a não ser Belisa Crepusculario, que nunca tinha visto o Mulato e que por isso mesmo estranhou que ele se lhe dirigisse.
— Procuro-te a ti — gritou, apontando-a com o chicote enrolado e, antes que acabasse de dizer isto, dois homens caíram em cima da mulher atropelando o toldo e partindo o tinteiro, amarraram-lhe os pés e as mãos e puseram-na atravessada como um fardo de marinheiro sobre a garupa do cavalo do Mulato. Depois começaram a galopar em direção às colinas.
Horas mais tarde, quando Belisa Crepusculario estava quase a morrer com o coração transformado em areia pelas sacudidelas do cavalo, sentiu que paravam e que quatro mãos poderosas a punham em terra. Tentou pôr-se de pé e levantar a cabeça com dignidade, mas faltaram-lhe as forças e caiu com um suspiro, afundando-se num sono pesado.
Despertou várias horas depois com o murmúrio da noite no campo, mas não teve tempo de decifrar esses ruídos porque ao abrir os olhos viu na sua frente o olhar impaciente do Mulato, ajoelhado a seu lado.
— Finalmente acordas, mulher — disse, estendendo-lhe o cantil para que bebesse um gole de aguardente com pólvora a acabasse de recuperar à vida.
Ela quis saber a causa de tantos maltratas e ele explicou-lhe que o Coronel necessitava dos seus serviços. Deixou-a molhar a cara e depois levou-a até a um dos extremos do acampamento, onde o homem mais temido do país repousava numa rede pendurada entre duas árvores. Ela não conseguiu ver-lhe o rosto, porque ele tinha em cima a sombra incerta da folhagem e a sombra indelével de muitos anos a viver como um bandido, mas imaginou que devia ter uma expressão viciosa uma vez que o seu gigantesco ajudante se dirigia a ele com tanta humildade. Surpreendeu-a a voz dele, suave e bem modulada como a de um professor.
— És tu a que vende palavras? — perguntou.
— Ao teu serviço — balbuciou ela, procurando na penumbra para o ver melhor.
O Coronel pôs-se de pé e a luz da tocha que o Mulato levava iluminou-lhe a cara. A mulher viu a sua pele escura e os seus ferozes olhos de puma e percebeu logo que estava em frente do homem mais solitário deste mundo.
— Quero ser presidente — disse ele.
Estava cansado de percorrer aquela terra maldita em guerras inúteis e derrotas que nenhum subterfúgio podia transformar em vitórias. Passara muitos anos a dormir à intempérie, picado por mosquitos, alimentando-se de iguanas e sopa de cobra, mas esses inconvenientes menores não eram razão suficiente para lhe mudar o destino. O que em verdade o enfadava era o terror nos olhos dos outros. Desejava entrar nas aldeias debaixo de arcos de triunfo, entre bandeiras de cores e flores, que o aplaudissem e lhe dessem de presente ovos frescos e pão acabado de sair do forno. Estava farto de ver como os homens fugiam à sua passagem, as mulheres abortavam de susto e tremiam as crianças, por isso decidira ser presidente. O Mulato sugeriu-lhe que fossem à capital e entrassem a galope no palácio para se apoderarem do governo, como tomaram tantas outras coisas sem pedir autorização, mas ao Coronel não interessava tornar-se noutro tirano, desses já tinha havido bastantes por ali e, além disso, dessa maneira não conseguiria o afeto das pessoas. A sua ideia consistia em ser eleito por votação popular nos comícios de Dezembro.
— Para isso tenho de falar como um candidato. Podes vender-me as palavras para um discurso? — perguntou o Coronel a Belisa Crepusculario.
Ela já tinha aceitado muitas encomendas, mas nenhuma como essa, no entanto não pôde negar-se, receando que o Mulato lhe enfiasse um tiro entre os olhos ou, pior ainda, que o Coronel desatasse a chorar. Por outro lado, teve vontade de o ajudar, porque sentiu uma palpitação quente na sua w pele, um desejo poderoso de tocar naquele homem, de percorrê-lo com as mãos, de apertá-lo entre os seus braços.
Toda a noite e boa parte do dia seguinte esteve Belisa Crepusculario à procura no seu repertório das palavras apropriadas para um discurso presidencial, vigiada de perto pelo Mulato, que não tirava os olhos das suas firmes pernas de caminhante e dos seus seios virginais. Retirou as palavras ásperas e secas, as demasiado floridas, as que estavam descoloridas pelo abuso, as que ofereciam promessas improváveis, as que careciam de verdade e as confusas, para ficar apenas com aquelas capazes de tocar com certeza o pensamento dos homens e a intuição das mulheres. Fazendo uso dos conhecimentos comprados ao padre por vinte pesos, escreveu o discurso numa folha de papel e fez logo sinais ao Mulato para desatar a corda com a qual a tinha amarrado pelas canelas a uma árvore. Levaram-na novamente ao Coronel e ao vê-lo tornou a sentir a mesma ansiedade palpitante do primeiro encontro. Deu-lhe o papel e esperou, enquanto ele a olhava segurando-o com a ponta dos dedos.
— Que porra diz isto aqui? — perguntou por fim.
— Não sabes ler?
— O que sei fazer é a guerra — respondeu ele.
Ela leu em voz alta o discurso. Leu-o três vezes, para que o seu cliente pudesse gravá-lo na memória. Quando terminou viu a emoção no rosto dos homens da tropa que se haviam juntado para a escutar e notou que os olhos amarelos do Coronel brilhavam de entusiasmo, certo de que com essas palavras a cadeira presidencial seria sua.
— Se, depois de ouvirem três vezes, os rapazes continuam de boca aberta, é porque esta droga serve, Coronel — aprovou o Mulato.
— Quanto te devo pelo teu trabalho, mulher? — perguntou o chefe.
— Um peso, Coronel.
— Não é caro — disse ele, abrindo a bolsa que trazia pendurada do cinturão com os restos do último saque.
— Além disso, tens direito a uma prenda. Correspondem-te duas, palavras secretas — disse Belisa Crepusculario.
— Como é isso?
Ela começou a explicar-lhe que, por cada cinquenta centavos que um cliente pagava, oferecia-lhe uma palavra de uso exclusivo. O chefe encolheu os ombros, porque não tinha o menor interesse na oferta, mas não quis ser indelicado com quem o servira tão bem. Ela aproximou-se devagar do tamborete de cabedal onde ele estava sentado e inclinou-se para lhe dar a sua prenda. Então o homem sentiu o cheiro de animal montês que saía daquela mulher, o calor de incêndio irradiado pelas ancas, o roçar terrível dos seus cabelos, o perfume de hortelã-pimenta sussurrando-lhe ao ouvido as duas palavras secretas a que tinha direito.
— São tuas, Coronel — disse, ao retirar-se. — Podes usá-las como quiseres.
O Mulato acompanhou Belisa até à beira do caminho, sem deixar de a olhar com olhos suplicantes de cão perdido, mas quando estendeu a mão para lhe tocar, ela deteve-o com um chorrilho de palavras inventadas que tiveram a virtude de lhe espantar o desejo, porque julgou tratar-se de alguma maldição irrevogável.
Nos meses de Setembro, Outubro e Novembro, o Coronel pronunciou o seu discurso tantas vezes, que se não fosse feito com palavras refulgentes e duradoiras o uso tê-lo-ia transformado em cinza. Correu o país em todas as direções, entrando nas cidades com ar triunfai e detendo-se também nas aldeias mais esquecidas, lá onde só o rasto do lixo indicava a presença humana, para convencer os eleitores a votarem nele. Enquanto falava em cima de um estrado no centra da praça, o Mulato e os seus homens distribuíam caramelos e pintavam o seu nome com tinta dourada nas paredes, mas ninguém prestava atenção a esses recursos de mercador, porque estavam deslumbrados pela claridade das suas propostas e pela lucidez poética dos seus argumentos, contagiados pelo seu desejo tremendo de corrigir os erros da história e alegres pela primeira vez na sua vida.
Ao terminar a arenga do candidato, a tropa dava tiros de pistola para o ar e acendia petardos e, quando por fim se retiravam, ficava atrás um rasto de esperança que permanecia muitos dias no ar, como a recordação magnífica de um cometa. Imediatamente o Coronel se tornou o político mais popular. Era um fenómeno nunca visto, aquele homem surgido da guerra civil, cheio de cicatrizes, falando como um catedrático, cujo prestígio se espalhava pelo território nacional comovendo o coração da pátria. A imprensa ocupava-se dele. Os jornalistas viajaram de longe para o entrevistar e repetir as suas frases, e assim cresceu o número dos seus segui¬dores e inimigos.
— Estamos a ir bem, Coronel! — disse o Mulato ao completarem-se doze semanas de êxito.
Mas o candidato não o ouviu. Estava a repetir as suas duas palavras secretas, como fazia, cada vez com mais frequência.
Dizia-as quando abrandava a nostalgia, murmurava-as adormecido, levava-as consigo no cavalo, pensava-as antes de pronunciar o seu célebre discurso e surpreendia-se a saboreá-las nos momentos descui¬dados. E em todas as ocasiões em que essas duas palavras lhe vinham à mente evocava a presença de Belisa Crepusculario e excitavam-se-lhe os sentidos com a recordação do cheiro montês, o calor de incêndio, o roçar terrível e o perfume de hortelã-pimenta, até que começou a andar como um sonâmbulo e os seus homens compreenderam que se lhe tinha acabado a vida antes de alcançar a cadeira dos presidentes.
— Que se passa contigo, Coronel? — perguntava-lhe muitas vezes o Mulato, até que por fim, um dia, o chefe não aguentou mais e confessou-lhe que a razão do seu ânimo eram as duas palavras que trazia cravadas no ventre.
— Diz-mas, para ver se perdem o seu poder — pediu-lhe o fiel ajudante.
— Não tas direi, são só minhas — replicou o Coronel.
Cansado de ver o chefe a definhar como um condenado à morte, o Mulato pôs a espingarda ao ombro e partiu à procura de Belisa Crepusculario. Seguiu as suas pegadas por toda a vasta geografia até a encontrar numa aldeia do Sul, instalada debaixo do toldo do seu ofício, contando o rosário de notícias. Ficou à sua frente com as pernas abertas, empunhando a arma.
— Vem comigo — ordenou.
Ela estava à sua espera. Guardou o tinteiro, dobrou o pano da barraca, pôs o xaile pelos ombros e, em silêncio, trepou para a garupa do cavalo. Não trocaram nem um gesto em todo o caminho, porque o desejo que o Mulato sentia por ela se tornara raiva e só o medo que a sua língua lhe inspirava o impedia de a desfazer à chicotada, nem estava disposto a dizer que o Coronel andava aparvalhado, e que aquilo que tantos anos de batalha não haviam logrado, conseguiu-o um encantamento sussurrado ao ouvido. Três dias depois, chegado ao acampamento, levou de imediato a sua prisioneira até ao candidato, diante de toda a tropa.
— Coronel, trouxe-te esta bruxa para que lhe devolvas as suas palavras e para ela te devolver a hombridade — disse, apontando o cano da espingarda à nuca da mulher. O Coronel e Belisa Crepusculario olharam-se longamente, medindo-se à distância. Os homens compreenderam então que o seu chefe já não podia desfazer-se do feitiço das suas palavras endemoninhadas, porque todos puderam ver os olhos carnívoros do puma tornarem-se mansos quando ele avançou e lhe pegou na mão.
ISABEL ALLENDE, Contos de Eva Luna (1988)
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Isabel Allende; Duas palavras
Um presente de arromba
Foi cinco dias depois dos meus anos. Tinha dezassete anos e cinco dias. Era terça feira, 25 de novembro. Chovia. Apanhei o autocarro porque chovia muito quando saí da escola. Só havia um lugar vago. Sentei-me e tentei afastar a nuca da gola, que ficara encharcada enquanto esperava na paragem do autocarro, e parecia a mão gelada da morte. Sentei-me e senti-me culpado por ter apanhado o autocarro.
Culpado por ter apanhado o autocarro. Por apanhar o autocarro. Vejam: a coisa pior quando se é jovem é a banalidade.
A razão por que me sentia culpado por ter apanhado o autocarro é esta: tinham passado cinco dias desde os meus anos, não é verdade? Para o aniversário, o meu pai dera-me um presente. Um presente de arromba. Inacreditável. Deve tê-lo planeado e andado a poupar durante anos, literalmente, para o comprar.
O presente estava lá, à minha espera, quando cheguei das aulas. Estacionado em frente de casa, mas nem dei por isso. O meu pai passou o tempo a fazer alusões indiretas, mas não percebi. Por fim, teve de me levar até lá fora e mostrar-mo. Quando me deu as chaves, a sua cara crispou-se toda, como se lhe apetecesse chorar de orgulho e de alegria.
Era, é claro, um carro. Não vou dizer qual era a marca, porque penso que já nos rodeia demasiada publicidade. Era um carro novo. Com relógio, rádio, todo artilhado. Levou uma hora a mostrar-me todos os extras.
Eu aprendera a guiar e em Outubro tirara a carta de condução. Parecia-me útil, em caso de emergência, e podia fazer alguns recados à minha mãe e sair sozinho se quisesse. Ela tinha um carro, o meu pai tinha um carro e agora eu tinha um carro. Três pessoas, três carros. A única chatice é que eu não queria um carro.
Quanto terá custado a coisa? Não perguntei, mas deve ter sido, pelo menos, três mil dólares. O meu pai é contabilista e nós não temos quantias destas para coisas desnecessárias. Com aquele dinheiro, eu podia ter vivido um ano ou mais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, se admitíssemos que conseguia uma bolsa de estudo. Foi o que imediatamente me passou pela cabeça, antes mesmo de ele abrir a porta reluzente. Podia ter colocado o dinheiro numa conta--poupança. É claro que eu podia vender o carro e não perderia muito dinheiro se o fizesse rapidamente. Pensava nisso enquanto ele me punha as chaves na mão e dizia: "É todo teu, filho!" E a cara dele tremia outra vez.
E eu sorri. Penso.
Fomos imediatamente dar uma volta no carro, é claro. Conduzi até ao parque, ele trouxe-o de volta, estava ansioso por pôr as mãos no volante e tudo correu bem. O problema só surgiu quando, na segunda--feira seguinte, descobriu que eu não fora de carro para o liceu. Porquê?
Não fui capaz de lhe explicar. Nem eu percebia bem. Se tivesse levado aquilo para o liceu e o tivesse arrumado lá no parque, desistia dele. Era meu. Pertencia-me. Era dono de um carro novo. Todo artilhado. A malta no liceu diria: “Eh, pá! Olha para aquilo! Porreiro! Topem o Griffiths-Acelera!”. Alguns deles gozariam, mas outros admirá-lo-iam verdadeiramente, e quem sabe se também a mim, por ter a sorte de o possuir. E isso é que eu não ia aguentar. Eu não sabia quem era, mas uma coisa é certa: não queria ser um acessório de um carro.
Ursula K. Le Guin
Tão longe de sítio nenhum
Lisboa, Ed. Fragmentos, s/d
Culpado por ter apanhado o autocarro. Por apanhar o autocarro. Vejam: a coisa pior quando se é jovem é a banalidade.
A razão por que me sentia culpado por ter apanhado o autocarro é esta: tinham passado cinco dias desde os meus anos, não é verdade? Para o aniversário, o meu pai dera-me um presente. Um presente de arromba. Inacreditável. Deve tê-lo planeado e andado a poupar durante anos, literalmente, para o comprar.
O presente estava lá, à minha espera, quando cheguei das aulas. Estacionado em frente de casa, mas nem dei por isso. O meu pai passou o tempo a fazer alusões indiretas, mas não percebi. Por fim, teve de me levar até lá fora e mostrar-mo. Quando me deu as chaves, a sua cara crispou-se toda, como se lhe apetecesse chorar de orgulho e de alegria.
Era, é claro, um carro. Não vou dizer qual era a marca, porque penso que já nos rodeia demasiada publicidade. Era um carro novo. Com relógio, rádio, todo artilhado. Levou uma hora a mostrar-me todos os extras.
Eu aprendera a guiar e em Outubro tirara a carta de condução. Parecia-me útil, em caso de emergência, e podia fazer alguns recados à minha mãe e sair sozinho se quisesse. Ela tinha um carro, o meu pai tinha um carro e agora eu tinha um carro. Três pessoas, três carros. A única chatice é que eu não queria um carro.
Quanto terá custado a coisa? Não perguntei, mas deve ter sido, pelo menos, três mil dólares. O meu pai é contabilista e nós não temos quantias destas para coisas desnecessárias. Com aquele dinheiro, eu podia ter vivido um ano ou mais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, se admitíssemos que conseguia uma bolsa de estudo. Foi o que imediatamente me passou pela cabeça, antes mesmo de ele abrir a porta reluzente. Podia ter colocado o dinheiro numa conta--poupança. É claro que eu podia vender o carro e não perderia muito dinheiro se o fizesse rapidamente. Pensava nisso enquanto ele me punha as chaves na mão e dizia: "É todo teu, filho!" E a cara dele tremia outra vez.
E eu sorri. Penso.
Fomos imediatamente dar uma volta no carro, é claro. Conduzi até ao parque, ele trouxe-o de volta, estava ansioso por pôr as mãos no volante e tudo correu bem. O problema só surgiu quando, na segunda--feira seguinte, descobriu que eu não fora de carro para o liceu. Porquê?
Não fui capaz de lhe explicar. Nem eu percebia bem. Se tivesse levado aquilo para o liceu e o tivesse arrumado lá no parque, desistia dele. Era meu. Pertencia-me. Era dono de um carro novo. Todo artilhado. A malta no liceu diria: “Eh, pá! Olha para aquilo! Porreiro! Topem o Griffiths-Acelera!”. Alguns deles gozariam, mas outros admirá-lo-iam verdadeiramente, e quem sabe se também a mim, por ter a sorte de o possuir. E isso é que eu não ia aguentar. Eu não sabia quem era, mas uma coisa é certa: não queria ser um acessório de um carro.
Ursula K. Le Guin
Tão longe de sítio nenhum
Lisboa, Ed. Fragmentos, s/d
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Úrsula le Guín; Um presente de arromba
O JARDIM EM FRENTE

Os big shots da empresa estavam reunidos em conferência. Assunto importante, desses que exigem atenção, objetividade. O presidente recomendara:
- Não estamos para ninguém. Esta porta fica trancada. Avisem à telefonista que não atenda nenhum chamado. Nem do Papa.
Começou-se por dividir o assunto em partes, como quem divide um leitão. Cada parte era examinada pelo direito e pelo avesso, avaliada, esquadrinhada, radiografada. Cartesianamente.
- Você aí, quer fazer o favor de parar com essa caricatura?- O presidente não admitia alienação. Por sua vez, foi advertido pelo vice:
- E você, meu caro, podia deixar de bater com esse lápis, toc, toc, toc, na mesa?
Estavam tensos, à véspera de uma decisão que envolveria grandes interesses. Alguém bateu à porta.
- Não respeitam! Não respeitam o trabalho da gente! Isso não é país!
- Seja ou não seja país, quando batem à porta a solução é abrir, para evitar novas batidas, ou, mesmo, que a porta venha abaixo. Pois ninguém deixa de bater, e sabe que tem gente do outro lado.
O director secretário abriu, de óculos fuzilantes. O chefe da portaria, cheio de dedos, balbuciou:
- Essa senhora... essa senhora aí. Veio pedir uma coisa.
O primeiro impulso do diretor secretário foi demitir imediatamente o chefe da portaria, servidor antigo, conceituadíssimo, mas viu ao mesmo diante de si a imagem consternada do homem, e a lei trabalhista: duas razões de clemência. Pensou ainda em mandar a senhora àquele lugar de Roberto Carlos, ou a outro pior. Dominou-se: ela ostentava no rosto aquela marca de tristeza, que amolece até directoria.
- A senhora me desculpe, mas estou tão ocupado.
- Eu sei, eu é que peço desculpas. Estou perturbando, mas não tinha outro jeito. Moro do outro lado da rua, no edifício em frente. Meu canário...
- Fugiu e entrou aqui no escritório? Eu mando pegar. Fique tranquila.
- Antes tivesse fugido. Morreu.
- E daí?
- Viveu quinze anos connosco. Era uma graça... pousava no dedo...
- E daí, minha senhora?
- O senhor vai estranhar meu pedido? Eu estava sem coragem de vir aqui. Por favor, não ria de mim.
- Não estou rindo. Pode falar.
- Os senhores tem um jardim tão lindo na cobertura. Da minha janela, fico apreciando. Então agora está uma coisa: posso fazer um pedido?
- Pode.
- Eu queria enterrar meu canário no seu jardim. Lá é que é lugar bom para ele descansar. O senhor vê, nós temos aquele terrenão ao lado do edifício, com três palmeiras, um pé de fruta-pão, mas é grande demais para um passarinho, falta intimidade. Se o senhor consente, eu mesma abro a covinha. Não dou o menor trabalho, não sujo nada.
O director secretário esqueceu que tinha pressa, que havia um problema sério a discutir. Que problema? Naquele momento, o importante, o real era um canarinho morto, e amado.
- Pois não, minha senhora, disponha do jardim. Eu mesmo vou levar a senhora lá em cima, para escolher o lugar.
Subiram, escolheram o canteiro mais apropriado, onde bate o sol pela manhã, e à tarde as plantas balançam levemente, à brisa do mar.
- Não é abuso eu fazer mais um pedido? Queria que o jardineiro não revolvesse a terra neste ponto, durante três meses. O tempo de os ossinhos dele se desfazerem... Volto daqui há meia hora para o enterro.
Meia hora depois, voltava com uma caixinha forrada de veludo azul claro, e a reunião dos big shots, que ainda durava, foi suspensa para que todos, com o presidente muito compenetrado, assistissem ao sepultamento.
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 22 de julho de 2011
QUEM SERIA A ESCOLHIDA?

Conta-se que por volta do ano 250 A.C, na China antiga, um príncipe da região norte do país estava às vésperas de ser coroado imperador mas, de acordo com a lei, deveria casar-se. Sabendo disso, ele resolveu fazer uma "disputa" entre as moças da corte ou quem quer que se achasse digna da sua proposta.
Anunciou que receberia, numa celebração especial, todas as pretendentes e que lançaria um desafio. Uma velha senhora, serva do palácio há muitos anos, ouvindo os comentários sobre os preparativos, sentiu uma leve tristeza, pois sabia que sua jovem filha nutria um sentimento de profundo amor pelo príncipe.
Ao chegar a casa e relatar o facto à jovem, espantou-se ao saber que ela pretendia ir à celebração, e indagou incrédula:
- Minha filha, o que fará lá? Estarão presentes todas as mais belas e ricas moças da corte. Tire esta ideia insensata da cabeça; eu sei que você deve estara sofrer, mas não torne o sofrimento uma loucura.
E a filha respondeu:
- Não, querida mãe, não estou a sofrer e muito menos louca. Eu sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é a minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos perto do príncipe. Isto já me torna feliz.
À noite, a jovem chegou ao palácio. Lá estavam, de facto, todas as mais belas moças, com as mais belas roupas, com as mais belas jóias e com as mais determinadas intenções. Então, , o príncipe anunciou o desafio:
- Darei a cada uma de vocês, uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor, será escolhida para minha esposa e futura imperatriz da China.
A proposta do príncipe não fugiu às profundas tradições daquele povo, que valorizava muito a especialidade de "cultivar" algo, fossem costumes, amizades, relacionamentos, etc...
O tempo passou e a doce jovem, como não tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava com muita paciência e ternura a sua semente, pois sabia que se a beleza da flor surgisse na mesma extensão de seu amor, ela não precisava se preocupar com o resultado.
Passaram-se três meses e nada surgiu. A jovem tudo tentara, usara de todos os métodos que conhecia, mas nada havia nascido. Dia após dia ela percebia cada vez mais longe o seu sonho, mas cada vez mais profundo o seu amor. Por fim, os seis meses haviam passado e nada havia brotado. Consciente do seu esforço e dedicação, a moça comunicou à mãe que, independentemente das circunstâncias, voltaria ao palácio, na data e hora combinadas, pois não pretendia nada além de mais alguns momentos na companhia do príncipe.
Na hora marcada estava lá, com seu vaso vazio, bem como todas as outras pretendentes, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. Ela estava admirada, nunca havia presenciado tão bela cena.
Finalmente chega o momento esperado e o príncipe observou cada uma das pretendentes com muito cuidado e atenção. Após passar por todas, uma a uma, anuncia o resultado e indica a bela jovem como sua futura esposa. As pessoas presentes tiveram as mais inesperadas reações. Ninguém compreendeu porque havia escolhido justamente aquela que nada havia cultivado. Então, calmamente o príncipe esclareceu:
- Esta foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma imperatriz. A flor da honestidade, pois todas as sementes que entreguei eram estéreis.
(autor desconhecido)
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Anónimo; Quem seria a escolhida?
UM POUCO DE SILÊNCIO
Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, gostar de sossego é uma excentricidade.
Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam connosco nem nos interessam.
Não há perdão nem amnistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.
O normal é ser actualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe, se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.
Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinadas – como hamsters que se alimentam da sua própria agitação.
Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.
Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.
Sob a pressão do ter de parecer, ter de participar, ter de adquirir, ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações. Muitas desnecessárias, outras impossíveis, algumas que não combinam connosco nem nos interessam.
Não há perdão nem amnistia para os que ficam de fora da ciranda: os que não se submetem mas questionam, os que pagam o preço da sua relativa autonomia, os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.
O normal é ser actualizado, produtivo e bem informado. É indispensável circular, ser bem relacionado. Quem não corre com a manada, praticamente nem existe, se não tomar cuidado, põem-no numa jaula: um animal estranho.
Pressionados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia, disparamos sem rumo – ou por trilhos determinadas – como hamsters que se alimentam da sua própria agitação.
Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença. Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo ameaça quem apanha um susto de cada vez que examina a sua alma.
Estar sozinho é considerado humilhante, sinal de que não «se arranjou» ninguém – como se a amizade ou o amor se «arranjasse» numa loja.
Além do desgosto pela solidão, temos horror à quietude. Pensamos logo em depressão: quem sabe terapia e antidepressivos? Uma criança que não brinca ou salta ou participa de actividades frenéticas está com algum problema.
O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incómodas e mal resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.
Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projetos e sonhos?
No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distração.
O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.
Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.
Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no ombro de criança e disse:
— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.
E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.
Então, por favor, dêem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.
O silêncio assusta-nos por retumbar no vazio dentro de nós. Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incómodas e mal resolvidas, ou se observa outro ângulo de nós mesmos. Damo-nos conta de que não somos apenas figurinhas atarantadas correndo entre a casa, o trabalho e o bar, a praia ou o campo.
Existe em nós, geralmente nem percebido e nada valorizado, algo para além desse que paga contas, faz amor, ganha dinheiro, e come, envelhece, e um dia (mas isso é só para os outros!) vai morrer. Quem é esse que afinal sou eu? Quais os seus desejos e medos, os seus projetos e sonhos?
No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos. Chegamos a casa e ligamos a televisão antes de largarmos a carteira ou a pasta. Não é para assistirmos a um programa: é pela distração.
O silêncio faz pensar, remexe águas paradas, trazendo à tona sabe Deus que desconcerto nosso. Com medo de vermos quem – ou o que – somos, adiamos o confronto com a nossa alma sem máscaras.
Mas, se aprendermos a gostar um pouco de sossego, descobrimos – em nós e no outro – regiões nem imaginadas, questões fascinantes e não necessariamente negativas.
Nunca esqueci a experiência de quando alguém me pôs a mão no ombro de criança e disse:
— Fica quietinha um momento só, escuta a chuva a chegar.
E ela chegou: intensa e lenta, tornando tudo singularmente novo. A quietude pode ser como essa chuva: nela nos refazemos para voltarmos mais inteiros ao convívio, às tantas frases, às tarefas, aos amores.
Então, por favor, dêem-me isso: um pouco de silêncio bom, para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito para além das palavras de todos os textos e da música de todos os sentimentos.
Lya Luft
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005
(Texto adaptado)
Pensar é transgredir
Lisboa, Presença, 2005
(Texto adaptado)
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Lya Luft; Um pouco de silêncio
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