segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

FRONTEIRA

Fronteira


Miguel Torga (1907-1995)

Quando a noite desce e sepulta dentro do manto o perfil austero do castelo de Fuentes, Fronteira desperta.
Range primeiro a porta do Valentim, e sai por ela, magro, fechado numa roupa negra de bombazina, um vulto que se perde cinco ou seis passos depois.
A seguir, aponta à escuridão o nariz afilado do Sabino. Parece um rato a surgir do buraco. Fareja, fareja, hesita, bate as pestanas meia dúzia de vezes a acostumar-se às trevas, e corre docemente a fechadura do cortelho.
O Rala, de braço bambo da navalhada que o D. José, em Lovios, lhe mandou à traição, dá sempre uma resposta torta à mãe, quando já no quinteiro ela lhe recomenda não sei quê lá de dentro.
O Salta, que parece anão, esgueira-se pelos fundos da casa, chega ao cruzeiro, benze-se, e ninguém lhe põe mais a vista em cima.
A Isabel, sempre com aquele ar de quem vai lavar os cueiros de um filho, sai quando o relógio de Fuentes, longe e soturnamente, bate as onze. Aparece no patamar como se nada fosse, toma altura às estrelas, se as há, e some-se na negrura como os outros.
O Júlio Moinante, esse levanta o gravelho, abre, senta-se num degrau da casa, acomoda o coto da perna da melhor maneira que pode, e fica horas a fio a seguir na escuridão o destino de um que lhe dói. Era o rei de Fronteira. Morto o Faustino nas Pedras Ninhas, herdou-lhe o guião. Mas um dia o Penca agarrou-o com a boca na botija, e foi só uma perna varada e as tripas do macho à mostra. Quando, naquele estado, entraram ambos em Fronteira, ele e o animal, parecia que o mundo se ia acabar ali. Mas tinha o filho, o João. E agora, enquanto o rapaz, como os mais, se perde nos caminhos da noite, vai-lhe seguindo os passos da soleira da porta.
Saem outros, ainda. Devagar, pelas horas a cabo, os que parece terem-se esquecido, vão deslizando da toca. Só mesmo quando não existe mais corpo adulto e válido no povo é que Fronteira sossega.
Coisa estranha: esta rarefacção que se faz na aldeia, longe de a esvaziar, enche-a. A terra veste-se de um sentido novo, assim deserta, à espera. Pequenina, de casas iguais e rudimentares, escondida do mundo nas dobras angustiadas e ossudas de uma capucha de granito, as horas que medeiam entre o seu coração e Fuentes são tão fundas e carregadas que quase magoam. Quem regressará primeiro?,
Noventa vezes em cada cem, é a Isabel. Aquilo são pés de veludo! Mas às vezes é o Sabino. Sempre de nariz no ar' a bater as pestanas contra a luz da candeia, entra em casa alagado em água e com um bafo tal a aguardente que tomba.
- Arruma! A mulher nem suspira. Pega no saco, mete-o debaixo da cama, e põe-se a lançar o caldo. Por fim, começa:
- O Valentim?
- Chumbo, já passou.
- O Rala?
- Uma caixa de conhaque. Vem por Fomos.
- O Salta?
- Foi a Tomeros. Volta amanhã.
- A Isabel?
- Seda.
Ao sair do Padilha parecia um bombo. E enquanto a maçã de Adão sobe e desce no pescoço comprido do Sabino, e a malga de caldo se esvazia, das respostas que dá e do mágico ventre da noite, diante do olhar angustiado da Joana e de Fronteira, vão surgindo os que faltam ainda: o João, o Félix e o Maximino.
Quando algum não regressa, e por lá fica varado pela bala de uma lei que Fronteira não pode compreender, o coração da aldeia estremece, mas não hesita. Desde que o mundo é mundo que toda a gente ali governa a vida na lavoura que a terra permite. E, com luto na alma ou no casaco, mal a noite escurece, continua a faina. A vida está acima das desgraças e dos códigos. De mais, diante da fatalidade a que a povoação está condenada, a própria guarda acaba por descrer da sua missão hirta e fria na escuridão das horas. E se por acaso se juntam na venda do Inácio uns e outros - guardas e contrabandistas -, fala-se honradamente da melhor maneira de ganhar o pão: se por conta do Estado a vigiar o ribeiro, se por conta da Vida a passar o ribeiro.
De longe em longe, porém, quando há transferências ou rendições, e aparecem caras e consciências novas, são precisos alguns dias para se chegar a essa perfeição de entendimento entre as duas forças. O que vem teima, o que está teima, e parece aço a bater em pederneira. Mas tudo acaba em paz.
Desses saltos no quotidiano de Fronteira, o pior foi o que se deu com a vinda do Robalo. Já lá vão anos. O rapaz era do Minho., acostumado ao positivismo da sua terra: um lameiro, uma junta de bois, uma videira de enforcado., o Abade muito vermelho à varanda da residência, e o Senhor pela Páscoa. Além disso, novo no ofício - na guarda, para onde entrara em nome dessa mesma terrosa realidade: um ordenado certo e a reforma por inteiro. Daí que lhe parecesse o chão de Fronteira movediço sob os pés. Mal chegou e se foi apresentar ao posto, deu uma volta pelo povoado. E aquelas casas na extrema pureza de uma toca humana, e aqueles seres deitados ao sol como esquecidos da vida, transtornaram-lhe o entendimento.
- Esta gente que faz? - perguntou a um companheiro já maduro no oficio.
- Contrabando.
- Contrabando!? Todos!? E as terras, a agricultura?
- Terras! ? Estas penedias.
O Robalo, queria falar de qualquer veiga possível, de qualquer chá que não vira ainda, mas tinha forçosamente de existir, pois que na sua ideia um povo não podia viver senão de hortas e lameiros. Insistiu por isso na estranheza. Mas o outro lavou dali as mãos:
- Não. Aqui, a terra, ao todo, ao todo, produz a bica de água da fonte. O resto vão-no buscar a Fuentes.
Mas nem assim o Robalo entendeu Fronteira e o seu destino. No dia seguinte, pelo ribeiro fora, parecia um cão a guardar. Que o dever acima de tudo, que mais isto, que mais aquilo - sítio que rondasse era sítio excomungado. Até as ervas falavam quando qualquer as pisava de saco às costas. Mal a sua ladradela de mastim zeloso se ouvia., ou se parava logo ou nem Deus do céu valia a um cristão. Em quinze dias foram dois tiros no peito do Fagundes, um par de coronhadas no Albino, e ao Gaspar teve-o mesmo por um triz. Se não dá um torcegão no pé quando apontava, varava a cabeça do infeliz de lado a lado. A bala passou-lhe a menos de meio palmo das fontes.
Mas Fronteira tinha de vencer. Primeiro, porque o coração dos homens, por mais duro que seja, tem sempre um ponto fraco por onde lhe entra a ternura; segundo, porque o Diabo põe e Deus dispõe.
Foi assim: Apesar de inconvivente e mazombo, num domingo em que havia festa em Fronteira, o
Robalo, que estava de folga, não resistiu: chegou-se aos bons. E quem havia de lhe entrar pelos olhos dentro ao natural, cobertinha da luz doirada do sol? A Isabel! A rapariga tirava a respiração a um mortal. Vinte e dois anos que nem vinte e dois dias de S. João. Cada braço, cada perna, cada seio, que era de a gente se lamber. Ora como ele andava também na mesma conta de primaveras, e não era de pedra, o lume. pegou-se à estopa. De tal sorte, que, quando o dia acabou, o Robalo, não parecia o mesmo. Evaporara-se-lhe o ar de salvador do mundo, e até já via Fronteira doutro jeito. Se não fosse aquele maldito instinto de castro-laboreiro... Tempos depois, apesar de os amores com a Isabel irem de vento em popa, cama e tudo, ainda o ladrão se lhe sai com esta:
- Gosto muito de ti, tudo o mais, mas se te encontro a passar carga e não paras, atiro como a outro qualquer.
A Isabel riu-se.
- Palavra?!
- Palavra. - A mim?!!!
- A minha mãe, que fosse...
Desprenderam-se dos braços um do outro melancolicamente. E quando no dia seguinte o Robalo voltou ao ninho tinha a porta fechada.
Como a vida em Fronteira é de noite que se vive, e o Robalo, era todo senhor do seu nariz, puderam decorrer meses sem o rapaz pôr os olhos sequer na rapariga. Ela passava o ribeiro como podia, e ele guardava o ribeiro como podia.
Fronteira olhava. E até ao Natal a vida foi deslizando assim. Na noite de Consoada, porém., aconteceu o que já se esperava. Parte da guarnição tinha ido de licença. Todos se chegavam ao calor da lareira familiar, saudosos de paz e harmonia. Mas o Robalo ficara firme no seu posto.
Nevava. Um frio tal que o próprio bafo gelava mal saía da boca. Visto de dentro da capa de oleado, o mundo parecia uma coisa irreal, alva, inefável como um sonho. O céu estava ainda mais silencioso e mais alto que de costume. E qualquer parte do Robalo, sem ele querer, diluía-se na magia que enluarava tudo. No Minho, numa noite assim... Pena a Isabel ter-lhe saído contrabandista... Tê-la encontrado numa terra daquelas... Senão, mais tarde, quando tivesse a reforma... Até mesmo agora... Comovido, deixou-se perder por momentos na vaga mansidão da brancura.
Mas, como por detrás do homem o guarda continuava alerta, mal acabava de pisar aquele caminho sem pedras, já o seu ouvido de cão da noite lhe trazia à consciência um rumor de passos só pressentidos.
Acordou inteiro. Tchap, tchap, tchap... Pela neve fora, da outra banda, aproximava-se alguém.
Quem diabo seria? O Carrapito? O Carrapito, não. Olha o Carrapito meter-se a um nevão daqueles! O Samuel? O Samuel também não. Era mais atarracado. Só se fosse o Gregório... Sim, porque o Cristóvão, que tinha o mesmo corpo, estava em Vila Seca, no namoro. Vira-o passar... A pessoa que vinha, caminhava sempre, direita como um fuso ao cano da carabina.
Tchap... Tchap... Todo gelado por fora, mas quente da emoção que lhe dava sempre qualquer alma em direcção ao ribeiro, o Robalo esperou. E, quando os passos se molharam no rego de água e chegaram à margem, a mola tensa estalou:
- Alto!
Mas o gume da palavra de comando não conseguiu cortar sequer os flocos de neve. A sensação que teve ao gritar foi a de um baque amortecido. Uma espécie de tiro à queima roupa.
Repetiu:
- Alto.
Uma voz cansada entrou-lhe no coração.
- Sou eu... TUM
- Sou. Mas nem trago contrabando, nem me posso demorar.
- TUM. Eu mesmo. E já disse que não trago contrabando, nem me posso demorar.
Se ele não fosse o Robalo, cego e frio dentro da função, o que lhe apetecia era tomar nos braços aquele corpo amado e rebelde, enfarinhado de neve e não sabia de que outra secreta alvura. Mas era o Robalo guarda, a guardar. Por isso fez arrefecer nas veias a fogueira que o escaldava e estacou o primeiro passo do vulto com nova ordem:
- Alto, já disse!
Docemente, numa carícia estranha para os seus ouvidos, quem passava falou:
- Não berres, que não vale a pena. Este volume todo - é gente. A intenção era boa, era... Mas de repente, em Fuentes, começam-me a apertar as dores... Se não me apego às pernas com quanta alma tinha, nascia-me o rapaz galego. Querias?
O coração do Robalo não aguentava tanto. Um filho! Um filho seu no ventre de uma contrabandista!
Regelou-se ainda mais.
- A mim não me enganas tu. Gente! No posto eu te direi se isso é gente, ou são cortes de seda. Vamos lá!
Pela neve fora a presença da rapariga era como um enigma sagrado diante dos olhos dele. Mas o guarda guardava.
- Ó homem de Deus, deixa-me ir enquanto posso! Olha que se as dores voltam como há bocado, é no sítio onde estiver...

O Robalo, porém, tinha de levar a cruz ao fim. já com a Isabel fechada na pobreza da tarimba, esperou ainda o milagre de a sua obstinação acabar em tecidos, em seco e peco contrabando posto a nu. 
Fronteira, contudo, podia mais do que uma absurda obstinação. E, mal a parturiente
atirou lá de dentro o primeiro grito a valer, o Robalo ruiu.
Desesperado, parecia um doido por toda a casa. De quando em quando, arrastado
por uma força que não conseguia dominar, chegava-se à porta do quarto, humilde, rasgado
de cima abaixo de ternura:
- Isabel... Um berro que estalava fino e súbito fazia-o recuar transido para o mais
fundo da sala.
Até que a trovoada amainou e do pesado silêncio que se fez nasceu para os seus
ouvidos maravilhados um choro doce, novo, muito puro, que lhe arrancou lágrimas dos
olhos.
Chegou-se à porta outra vez:
- Isabel... A voz cansada da mulher mandou-o entrar. E, quando o dia rompeu,
Fronteira tinha de todo ganho a partida. Demitido, o Robalo juntou-se com a rapariga. Ora
como a lavoura de Fronteira não é outra, e a boca aperta, que remédio senão entrar na lei
da terra! Contrabandista.
E aí começam ambos a trabalhar, ele em armas de fogo, que vai buscar a Vigo, e ela
em cortes de seda, que esconde debaixo da camisa, enrolados à cinta, de tal maneira que já
ninguém sabe ao certo quando atravessa o ribeiro, grávida a valer ou prenha de mercadoria.

MARCOS

Marcos


Miguel Torga (190-1995)

Enjeitado e comido de cieiro, o Marcos apareceu em Valdigem. a pedir. Os pés, descalços e pequeninos, pareciam dois aranhiços vermelhos a cirandar na neve. Pelos rasgões das calças viam-se-lhe retalhos do corpo de criança. Um bragués ensebado caía-lhe sobre as orelhas e tapava-lhe os olhos de doninha. E um casaco de homem, de mangas arregaçadas e ombros caídos, cheio de cunetas e fechado na gola com uma segurança, acabava por fazer dele um cabide sem pernas.
- Não podes trabalhar, rapaz? - ralhou-lhe a Engrácia, a dar-lhe um migalho de pão.
- Posso, sim senhora. Quer-me para moço? Não o quis a Engrácia, mas ficou em casa do Maia.
- Onde arranjaste o enxalmo, João? - perguntou-lhe o cunhado.
- Na rua... É cão vadio...
- Está bem! E meteste-o de portas para dentro sem saber nada dele?
- Tens medo que me degole? E o Maia ria-se daquela desconfiança crónica do parente.
- Mas pode-te roubar... - Caldo da panela! A conversa do costume. Na monotonia rotineira da povoação, só o Mala conseguia agitar o espírito de todos com o simples gosto de estender a mão ao desconhecido. Sem grande generosidade e amigo de acautelar o que lhe pertencia, tinha contudo um fraco: a novidade. E o que aparecia na terra de inesperado ou de pitoresco passava-lhe pelo quinteiro. Nas histórias de Valdigem entrava sempre o seu nome, duma maneira ou doutra. Uns ciganos que deixara acampar no souto levaram-lhe a égua; o homem dos Robertos, que agasalhara em casa, fez uma pantomina no dia seguinte das zangas dele com a mulher; uma recoveira de Freixo pariu-lhe numa loja. Mas o Maia achava graça a tudo e, mal se oferecia nova oportunidade, ei-lo metido outra vez a empresário de aldeagantes. Olhava os seres estranhos com a curiosidade dum espectador. Muito embora às vezes eles comessem a isca e sujassem no anzol, nem por isso deixava de se rir como um perdido, se o caso o merecia. No fundo, era um imaginativo sem imaginação. E aplaudia incondicionalmente a dos outros, mesmo quando fazia figura de asno. O Alexandre Rato é que se doía, zeloso do bom nome da família.
- Como se chama o pequeno? - Marcos. - Marcos quê? - Marcos. É tudo o que sei dele. Não interrogava os actores. Dava-lhes um palco para a representação e ficava à espera. Nem conhecia o passado, nem lhe interessava o futuro de nenhum.
- Tu lá te entendes. Mas eu cá, pelo sim, pelo não... O rapaz não caiu do céu! Há-de ter vindo de alguma parte. Ao menos perguntar-lhe a terra onde nasceu!
- Nada. Não pergunto nada. - Olha, oxalá tenhas sorte... Encolheu os ombros, indiferente à ambiguidade do voto. Deus, ou quem mandava no andamento do mundo, conhecia bem as suas necessidades. Há muito que não fazia outra coisa senão plissar as leiras com a aiveca da charrua, numa desconsolação de corpo e alma. Por isso, tudo seria bem vindo, menos a sensaboria de mais um serviçal com pia de baptismo conhecida e boas informações. Objectivamente., precisava de alguém para substituir o Acúrcio, convocado para o serviço militar. Porque não havia de ser justamente o arábias do rapaz, arribado a Valdigem como andorinha nova, tresmalhada do bando e do tempo?
- Que andas tu a fazer, gabiru? - perguntara-lhe à salda da venda do Belchior, ao vê-lo de penugem arrepiada e com duas torcidas de ranho no nariz.
- A pedir. Sem saber porquê, gostou da pinta do miúdo. E não esteve com meias medidas:
- Queres guardar gado?
- Quero, sim senhor.
- Então, vem daí. A mulher, acostumada já àquelas manias, nem reagiu. Quando o novo hóspede lhe entrou a medo pela cozinha dentro, só disse:
- Assoa-te, ao menos.
O que o pequeno fez à manga do casaco. E logo no dia seguinte o Marcos palmilhava a serra a passear as ovelhas, feliz da vida.
- Por acaso, parece que acertaste... - confessava o Rato, tempos depois, rendido. - É danado., o garoto! ontem encontrei-o nos Pitões com três borregos às costas, acabados de nascer.
- Tem jeito, tem... - Tem jeito., ou tu nunca avezaste coisa tão boa?!
- Ora., não avezei!
- Passa-mo, que eu agradeço. Se não estás contente,, dá-mo.
- Não posso dar aquilo que não é meu! Falava com um espinho a picar-lhe a alma. Muito embora reconhecesse a boa vontade e finura do ganapo, no fundo, esperava dele outra coisa. Não sabia o quê, evidentemente. Mas qualquer maluqueira. Uma façanha inesperada, que desse brado! Assim, diligente e desenxabido, é que era de perder a paciência. E, como não podia confessar os motivos da desilusão, tergiversava diante do entusiasmo do cunhado e dos mais. O rapaz não se distinguia, afinal, dos outros da terra. Aparecia de vez em quando em casa com um láparo arrancado duma lura., soltava-se-lhe o sangue do nariz, mijava na cama - bolas para tal riqueza! E., ainda por cima, sempre ensacado no maldito balandrau, agora mais esfarrapado ainda.
- Trazes o moço tão mal arranjado., João! - protestou um dia o Moisés.
- Bem anda. Desde que tenha a barriga forrada de broa, o resto é luxo.
E o tempo ia correndo na pobreza serrana de Valdigem. Acabou o inverno, passou a primavera, entrou o verão, e o Marcos na mesma triste figura de pobre pedinte, encafuado nos trapos.
- Dá uma roupa ao desgraçado! - aventurou a irmã, a mulher do Rato, já com vergonha de uma tal miséria.
- Dou-lhe mas é cabo do canastro, se torna a roubar uvas a alguém! Que me venham fazer queixa outra vez...
O Marcos recolhia o gado na loja e por acaso ouviu a conversa.
- Mesmo de cotim... - teimava a Júlia.
- Calas o povo.
- O povo não tem nada com a minha vida. Começava a odiar o rapaz. A monotonia das coisas secava-lhe a humanidade. Tinha necessidade de fantasia, de variedade, de abalos súbitos na pasmaceira das horas. Então, sim! Diante duma situação inesperada, trágica ou grotesca, tanto fazia, abria-se-lhe o coração e a carteira.
- Também não sei que mal te fez a criança! - desabafou a irmã, agora com sentimentos de mulher.
- Nem mal, nem bem... Não vale a água que bebe! Mas, enfim... Mudemos de conversa.
- Eu vejo-o é derreadinho o dia inteiro, como um escravo. Logo de manhã cedo, lá vai aquele infeliz...
- Não é por muito madrugar... Debatia-se entre duas forças opostas: por um lado, uma vontade insofrida de correr com o moço a pontapés; por outro, uma espécie de superstição inibidora, uma necessidade secreta de não aceitar a falência da sua esperança. Apesar de tudo, não queria desesperar. Despedir o catraio parecia-lhe dizer adeus para sempre à ilusão. E, acabadas as conversas laudatórias do cunhado, da irmã ou dos outros, continuava a espiar disfarçadamente o rapaz, a ver se o milagre acontecia.
Caiu-lhe a alma aos pés quando ouviu contar que em Grijó um pastor da idade do Marcos, por falta de um espelho onde visse a figura que fazia com a primeira camisa que ia estrear, a vestira ao cão do rebanho, transformado em manequim. Nisto aparece um lobo e quem é que segura o laboreiro? O pequeno bem corria atrás dele a berrar: jau, Jau, dá-me primeiro a camisa! jau, ouve cá, ouve... Era o mesmo que gritar a um mouco. Os que presenciavam a cena riam-se como perdidos... E o maluco às asneiras a quem fazia caçoada e sempre a Jau, olha que ma rasgas!... Jau... Jau...
Um pratinho! Segue-se que quando o cão regressou do combate trazia apenas o colarinho muito bem abotoado à volta do pescoço. O resto tinha ficado em tiras, nas urgueiras.
- Não ser o meu! - desabafou o Maia, sem querer.
- Dá-lhe primeiro a camisa... Coçou a barba, constrangido. - Dava, dava, se ele a merecesse... E largou, para não lhe pedirem mais explicações.
Acabou por ser a própria mulher, a Laura, mísera como uma fuinha, a reclamar:
- Não tens remédio senão comprar uma andaina ao cachopo, agora na Senhora da Saúde...
- Se estiver tão livre da peste!
- Então, manda-o embora.
- Ah! mande! Sossega. Mas primeiro temos de ajustar umas contas velhas. Deixa-me acabar de encher.
O Marcos ouvia a conversa, da cama. - Mas põe-mo a andar antes da festa! Não quero mais falatórios.
- Descansa! já te disse que não vai de anjo na procissão. Até lá, há-de saber o gosto que o fado tem. Pedaço de asno! A gente a matar-lhe a fome, a metê-lo dentro de casa, e sai-me um bandalho que não presta para nada...
A mulher, alheia às razões íntimas de um tal rancor, e sem procurar sequer conhecê-las, começou a roncar. E o Maia adormeceu também.
O Marcos, na sua enxerga, é que ficou ainda a ruminar. Tinha portanto doze dias, quantos demorava ainda a romaria, para pôr o corpo a são e salvo das iras do patrão. Estava informado.
Começou então uma luta surda entre os dois.
O Maia a arranjar pretextos para tosar o miúdo, e este, finório, a redobrar de solicitude, a quebrar-lhe as mãos.
- O filho da puta do rapaz parece que me adivinha os pensamentos!
- Compra-lhe a roupa e fica com ele.
- Não. Prova-me as unhas e depois rua! Foi justamente na véspera do arraial que o Maia conseguiu o almejado pé que esperava. Ergueu-se um migalho mais tarde e, quando foi a dar conta, o gado berrava na loja cheio de fome. Ahn?! Queriam ver? Tinha ou não tinha razão? Ora ali estava o grande zelo do senhor moço!
O sol a pino e sua excelência ainda no primeiro sono!
Sem mais delongas, não fosse o diabo roubar-lhe aquela oportunidade de explodir, entrou no curral de soga na mão. O facínora lá estava ferrado a dormir, com o chapéu esbadanado a cobrir-lhe a cara, por causa das moscas. O grande como! Até que enfim podia dar-lhe uma lição! E sem lhe ficar a doer a consciência... Nada!
O estupor do valdevinos não valia um cigarro. Nem brios, nem criação, nem piada, nem coisíssima nenhuma! Nunca lhe entrara em casa traste tão reles!
De sorriso sardónico nos lábios, pé ante pé, para que fosse a primeira vergastada a acordar o malandrim, chegou-se junto do catre e descarregou a füxia. Mas nem o som da pancada lhe agradou, nem o dorminhoco se doeu. E foi já desconfiado que secundou o golpe.
Viu então com alegria que estava diante duma mistificação. O Marcos enchera as calças e o casaco de palha, metera o corpo debaixo da manta, no sítio da cabeça colocara o cabaneiro, e deixara-lhe ali o fantasma do corpo.
- Ai o grande malandro, que chegou para mim!
Agradecido ao céu por aquele desfecho inesperado, subiu novamente a escada e entrou na cozinha perdido de., riso.
- Tu que tens? - quis saber a mulher, pasmada do despropósito.
- O rapaz saiu-se à última hora! Anda ver...
Até ela achou graça, sem se lembrar que o pequeno não se pusera na alheta nu como viera ao mundo.

Prepararam-se para-a missa e, quando depois no adro os dois contavam o caso, a Elvira Concha, iluminada, responsabilizou-os por uma roupa nova do filho, que na véspera lhe desaparecera de casa misteriosamente. A Laura, semítica e assomadiça, ainda quis discutir. Mas o Maia continuou com a mesma boa disposição, prometeu pagar o prejuízo, e passou o dia a perguntar a todos se precisavam dum espantalho nas leiras, porque tinha lá um.

NATAL

Natal

Miguel Torga (1907-1995)

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos., parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá.
E caía, o algodão em ramal Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.
- Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também.
Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava? Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
- É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas., diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na e trouxe-a para junto da fogueira. Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

O SÉSAMO

O Sésamo


Miguel Torga (1907-1995)
- Abre-te, Sésamo! - gritava, o Raul, no meio do silêncio pasmado da assistência.
A fiada estava apinhada naquela noite. Mulheres, homens e crianças. As mulheres a fiar, a dobar ou a fazer meia, os homens a fumar e a conversar, e a canalhada a dormitar ou nas diabruras do costume. Mas chegou a hora do Raul e, como sempre, todos arrebitaram a orelha às histórias do seu grande livro. Em Urros, ao lado da instrução da escola e da igreja, a primeira dada a palmatoadas pelo mestre e a segunda a bofetões pelo prior, havia a do Raul, gratuita e pacifica, ministrada numa voz quente e húmida, que ao sair da boca lhe deixava cantarinhas no bigode.
“- Abre-te, Sésamo! - E o antro, com seu deslumbrante recheio, escancarou-se em sedutor convite...”
As crianças arregalavam os olhos de espanto. Os homens estavam indecisos entre acreditar e sorrir. As mulheres sentiam todas o que a Lamega exprimiu num comentário:
- O mundo tem cousas!... Urros, em plena montanha, é uma terra de ovelhas. Ao romper de alva, ainda o dia vem longe, cada corte parece um saco sem fundo donde vão saindo movediços novelos de lã. Quem olha as suas ruelas a essa hora, vê apenas um tapete fofo, ondulante, pardo do lusco-fusco, a cobrir os lajedos. Depois o sol levanta-se e ilumina os montes. E todos eles mostram amorosamente nas encostas os brancos e mansos rebanhos que tosam o panasco macio. A riqueza da aldeia são as crias, o leite e aquelas nuvens merinas que se lavam, enxugam e cardam pelo dia fora, e nas fiadas se acabam de ordenar. Numa loja de gado, ao quente bafo animal, junta-se o povo. Todos os moradores se cotizam para a luz de carboneto ou de petróleo, e o serão começa. É no inverno, nas grandes noites sem-fim, que se goza na aldeia essa fraternidade. Há sempre novidades a discutir, namoriscos a tentar, apagadas fogueiras que é preciso reacender, e, sobretudo, há o Raul a descobrir cartapácios ninguém sabe como e a lê-los com tal sentimento ou com tanta graça que ou faz chorar as pedras ou rebentar um morto de riso.
Daquela feita tratava-se de uma história bonita, que metia uma grande fortuna escondida na barriga de um monte. E o rapazio, principalmente, abria a boca de deslumbramento. Todos guardavam gado na serra. E a todos ocorrera já que bem podia qualquer penedo dos que pisavam estar prenhe de tesouros imensos. Mas que uma simples palavra os pudesse abrir - isso é que não lembrara a nenhum.
Da gente miúda que escutava, o mais pequeno era o Rodrigo., guicho, imaginativo, e por isso com fama de amalucado. No meio de uma conversa séria, tinha saídas inesperadas e desconcertantes. Via estrelas de dia, que ninguém,, por mais que fizesse, conseguia enxergar, assobiava modas inteiramente desconhecidas, e desenhava no chão a cara de quem quer que fosse., o que era o cúmulo dos assombros. Enfezado., sempre a pegar com os outros e a berrar como um infeliz quando depois lhe batiam, ouvia do seu canto a leitura do Raul., maravilhado e a fazer projectos.
A fiada acabou tarde., com a assistência a cair de sono e a lutar para prender na imaginação aquela riqueza oriental enfragada. E de manhãzinha., o Rodrigo, contra o costume,, esgueirou-se sozinho para a serra da Forca atrás do rebanho. A história do Raul tinha-lhe encandescido os miolos. Necessitava por isso de solidão e de apagar o incêndio sem testemunhas.
A serra da Forca é longe e é feia. Tem pasto, mas de que vale ?! O passado deixou ali tanto grito perdido, tanto cadáver insepulto, tanta alma penada, que até mesmo as ladainhas da primavera se desviam e passam de largo. Mas é nos sítios assim amaldiçoados que o povo, talvez para as preservar da coscuvilhice da razão, gosta de plantar lendas bonitas e aliciantes. E vá de inventar que havia um tesoiro escondido naquele ermo de maldição. Encontrá-lo é que era difícil. Enterrado entre penedias, guardado por mil fantasmas, quem teria coragem de tentar a empresa? Ninguém. E o monte excomungado lá continuava azulado na distância, agreste e assombrado.
O Rodrigo, porém, resolvera quebrar o encanto.
E, às pedradas ao gado, ao nascer do sol tinha-o na frente.
Ia simplesmente rasgar o véu do mistério. Ia imitar o ladrão da história, com a diferença apenas de que uma vez dentro da caverna não se esqueceria, como o outro, das palavras mágicas que lhe assegurariam a retirada.
Das riquezas que encontrasse não sabia ainda o que fazer. Nem sequer pensara nisso, porque os tesouros não eram o seu fim verdadeiro. A sedução de tudo estava no prodígio em si, na fascinação do próprio acto assombroso que iria realizar.
E o pequeno, ágil e confiado, chegou ao alto, trepou à fraga maior e olhou em redor. A seus pés jaziam, caídos, os dois grossos pilares da forca, onde segundo a tradição tinham exalado o último suspiro todos os justiçados da montanha. Sentar-se neles, tocar-lhes, era ainda, dizia o povo, uma pessoa condenar-se a morrer de morte infeliz. Mas o Rodrigo trazia na vontade uma força que o preservava dessas contingências. A fórmula encantatória brincava-lhe nos lábios finos e frescos de criança. E uma alegria imensa, pura, calma, arredou para longe os espectros patibulares que tentavam perturbar a grandeza daquela hora. Abrir um monte! Dizer com ânimo, e certeza duas palavras, e uma riqueza sem par oferecer-se passiva aos olhos da gente!
Para dilatar o gosto do poder que possuía (e talvez por um sentido íntimo de falência de que não tinha consciência inteira), prolongava o tempo. Murmurava mentalmente a ordem de comando que aprendera no conto, e cerrava os dentes para que a boca o não pudesse trair antes do momento escolhido.
O rebanho, esquecido do dono, pastava, alheio aos segredos da serra e do pastor. De quando em quando erguia-se do meio dele um balido solitário, mas era um apelo sem resposta.
- Vai ser agora! - disse o Rodrigo, alto, a resolver-se.
E com medo de a montanha fender precisamente pelo sítio onde estava, que era no pino e no meio da fraga mais alta, desviou-se um pouco para a esquerda.
- É por ali, com certeza... Media os penedos, calculava o tamanho do buraco, via de antemão as entranhas da terra expostas à luz do sol.
- E o gado? - lembrou-se então.
O gado pastava em baixo, num valeiro, em lugar por onde a imaginação mais ardente não podia fazer passar o prodígio. Mesmo que rolassem pedras, ou caísse a carvalha agarrada a um barranco, não havia perigo.
- Só se houver muito azar - rematou., a serenar os cuidados.
E de alma tranquila, mas a tremer de emoção, solenemente, o pequeno feiticeiro ergueu a mão e gritou:
- Abre-te, Monte da Forca!
A sua imaginação ardente acreditava em todos os impossíveis. Tinha a certeza de que o Sésamo da história do Raul existira realmente. Por isso ouviu com serenidade e confiança o eco da própria voz a regressar ferido das encostas. Tudo requeria o seu tempo.
Irreais, os horizontes perdiam-se ao longe, esfumados e frios. Vago, o rebanho, à volta, tosava a erva mansamente. Impreciso, o gemido da ovelha queixosa não conseguia transpor o limiar da consciência do pastor.
Transfigurado, o Rodrigo estava entregue ao milagre. Ordenara-o e esperava por ele.
- Abre-te, Monte da Forca! - gritou de novo, já enfadado de uma espera que não cabia na ilusão.
Qualquer coisa à volta pareceu tremer, e o coração do pequeno saltou. - Abre-te! - reforçou, angustiado. Mas os horizontes começaram a tomar crueza e sentido, o rebanho avolumou-se, e o balido da ovelha aflita subiu mais.
- Era mentira! - e pelo seu rosto infantil e desiludido uma lágrima desceu desesperada.
- Era mentira... - repetiu, debruçado sobre a alta fraga, a soluçar.
Tudo nele tinha a verdade da inocência. Lograra e fora logrado já, mas no jogo dos botões e a esconder da mãe um novelo de linhas para a baraça do pião. Quando, porém, se tratava de cousas grandes como fábulas e mitos, a sua alma cândida não concebia que pudesse haver mistificação. E a primeira vez que tirava a prova àquela confiança, que tentara ver de perto a miragem, acordava cruamente traído!
Valeu-lhe a feliz condição de criança. Ele ainda a chorar e já a mão do esquecimento a enxugar-lhe os olhos. Breve como vem, breve se vai o pranto dos dez anos. A ovelha chamava sempre. E o balido insistente acabou por acordá-lo para a realidade simples da sua vida de pastor.
Ergueu-se, desceu da alta fraga enganadora, e, de ouvido atento, foi direito ao queixume.

- Olha, era a Rola... Um cordeiro acabara de nascer e a mãe lambia-o. O outro estava ainda lá dentro, no mistério do ventre fechado.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Tesouro

Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse inverno , engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.
Ora, na primavera , por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de abril — os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferio. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!
No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam… E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos as cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demónio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforges de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforges e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.
— Bem tramado! — gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até á fivela do cinturão.
Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
— Manos! O cofre tem três chaves… Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!
— Também eu quero a minha, mil raios! — rugiu logo Rostabal.
Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia, Vestida de negro luto…
II
Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água. brotando entre rochas: caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia connosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
— Não, mil raios! Guanes é sôfrego… Quando o ano passado. se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
— Vês tu? — gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
— E para quê — prosseguia Rui. — Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até ás outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos…
— Pois que morra, e morra hoje! — bradou Rostabal.
— Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:
— Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de «cerdo» e de «torpe», por não saberes a letra nem os números.
— Malvado!
— Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos — e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando E Rostabal, que lhes seguira o roo, recomeçou a bocejar, com tome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia, Vestida de negro luto…
Rui murmurou: — Na ilharga! Mal que passe! — O chouto da égua bateu o cascalho. uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada — e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua — Rostabal. caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.
— A chave! — gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda — Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela. não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada — e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse urna estaca num canteiro, enterrou a folha toda na largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo — e um sangue mais grosso forrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.
III
Agora eram dele. só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de dezembro . alguns ossos sem nome. ele seria u magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos… Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos — a pelejar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges — e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que rescendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo — nem esquecera azeitonas. Mas porque trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa. Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia — destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de urna ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa. tomou um punhado de ouro… Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente. limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:
— Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava — sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água. que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou. caiu para cima da relva. que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu. com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente; esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:
— É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.
Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando. lavava o outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.

A AIA

Era uma vez um rei, moço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste a sua rainha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas.
A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, começava a minguar, quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rotas, negro do sangue seco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, trespassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio.
A rainha chorou magnificamente o rei. Chorou ainda desoladamente o esposo, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai, que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela força e forte pelo amor.
Desses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem depravado e bravio; consumido de cobiças grosseiras, desejando só a realeza por causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num castelo sobre os montes, com uma horda de rebeldes, à maneira de um lobo que, de atalaia no seu fojo, espera a presa. Ai! a presa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu guizo de oiro fechado na mão!
Ao lado dele, outro menino dormia noutro berço. Mas era um escravozinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos tinham nascido na mesma noite de verão . O mesmo seio os criara. Quando a rainha, antes de adormecer, vinha beijar o principezinho, que tinha o cabelo louro e fino, beijava também, por amor dele, o escravozinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Somente, o berço de um era magnífico de marfim entre brocados, e o berço de outro, pobre e de verga. A leal escrava, porém, a ambos cercava de carinho igual, porque, se um era o seu filho, o outro seria o seu rei.
Nascida naquela casa real, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do grande rio. Pertencia, porém, a uma raça que acredita que a vida da terra se continua no céu. O rei seu amo, decerto, já estaria agora reinando em outro reino, para além das nuvens, abundante também em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os seus pajens tinham subido com ele às alturas. Os seus vassalos, que fossem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retomar em torno dele a sua vassalagem. E ela, um dia, por seu turno, remontaria num raio de lua a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no céu como fora na terra, e feliz na sua servidão.
Todavia, também ela tremia pelo seu principezinho! Quantas vezes, com ele pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos lentos que correriam, antes que ele fosse ao menos do tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua borda! Pobre principezinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava nos braços. Mas o seu filho chalrava ao lado, era para ele que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. Esse, na sua indigência, nada tinha a recear a vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência, na verdade, era para ele mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela enegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores, dos beijos que ela fazia ligeiros sobre as mãos do seu príncipe.
No entanto, um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras, descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande batalha. E a rainha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de viúva. Só a ama leal parecia segura, como se os braços em que estreitava o seu príncipe fossem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpor.
Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergéis reais. Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sobre lajes, como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E além, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas… Num relance tudo compreendeu: o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe! Então, rapidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de verga, e, tirando o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no berço real que cobriu com um brocado.
Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobre a cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou, correu o berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança como se arranca uma bolsa de oiro, e, abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.
O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva.
Mas brados de alarme atroaram, de repente, o palácio. Pelas janelas perpassou o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E desgrenhada, quase nua, a rainha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, caiu sobre as lajes num choro, despedaçada. Então, calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço de verga… O príncipe lá estava quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de oiro. A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.
E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão das guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porém, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, ele e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa poça de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do príncipe lá ficara também envolto num manto, já frio, roxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado! Assim tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas, quando a rainha, deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho mostrar, o príncipe que despertara.
Foi um espanto, uma aclamação. Quem o salvara? Quem?… Lá estava junto do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela que, para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o seu filho… Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria extática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu coração… E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com súplicas de que fosse recompensada magnificamente a serva admirável que salvara o rei e o reino.
Mas como? Que bolas de oiro podem pagar um filho? Então um velho de casta nobre lembrou que ela fosse levada ao Tesoiro real, e escolhesse de entre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesoiros da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse…
A rainha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a rigidez, com um andar de morta, como um sonho, ela foi assim conduzida para a Câmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam, num respeito tão comovido, que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lajes. As espessas portas do Tesoiro rodaram lentamente. E, Quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de oiro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, cintilavam, refulgiam os escudos de oiro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, acumuladas por cem réis durante vinte séculos. Um longo — ah! — lento e maravilhado, passou por sobre a turba que emudecera. Depois houve um silêncio ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa. a ama não se movia… Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido para aquele céu que, além das grades, se tingia de rosa e de oiro. Era lá, nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o Sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava decerto, e procurava o seu peito!… E então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar aquele lento mover da sua mão aberta. Que joia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubis ia ela escolher?
A ama estendia a mão, e sobre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um velho rei, todo cravejado de esmeraldas, e que valia uma província.
Agarrara o punhal, e com ele apertado fortemente na mão, apontando para o céu, onde subiam os primeiros raios do Sol, encarou a rainha, a multidão, e gritou:
— Salvei o meu príncipe, e agora… vou dar de mamar ao meu filho
E cravou o punhal no coração.
Eça de Queirós